a vista da janela pode ser bem convidativa. mas num voo noturno? imagino as pessoas ao redor estranhando minha fixação em encarar a noite escura lá fora e acho graça. ninguém sabe o que eu vejo. quer dizer, ali estão as estrelas, isso todo mundo pode enxergar. lá embaixo, as luzes das cidades que vão ficando pra trás pintam bonitos quadros geométricos. a claridade pontualmente esparramada se soma aos imensos espaços vazios pra formar um conjunto profundamente intrigante. fico aí durante alguns bons minutos, curtindo a sensação de ser minúscula diante de um universo que eu tento dimensionar só pra ter o prazer de não conseguir (será que alguém vai entender o que é isso?). chego à conclusão de que não dá pra assimilar verdadeiramente o conceito de infinito, por mais que se queira e tente, porque a ideia de finitude permeia tudo o que envolve estar vivo - começando pela própria vida.
num momento seguinte, vou lendo um texto e, como que pra complementar minhas reflexões, surge um trecho que fala sobre interpretar a impermanência das coisas como algo que confere liberdade em vez de promover angústia. na verdade o texto era sobre outro tema menos específico, mas o que bateu onda foi esse pedaço. e sei que nem é algo assim inédito, original, mas aí eu me lembro de Caetano quando ele diz:
e aquilo que nesse momento se revelará aos povos
surpreenderá a todos, não por ser exótico
mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
quando terá sido o óbvio
o avião pousa.
a paz de espírito, às vezes, é tão ridiculamente óbvia...
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