aqui eu tenho visto esse processo se desenrolando bem na minha cara. mas já volto a esse ponto. porque antes da exclusão social, e por detrás dela, antes mesmo das questões econômicas, a meu ver, existe uma mentalidade mesquinha e ela se revela cotidianamente. já escutei muita bobagem nesse ano e meio. foi o caso de uma amiga que morava, na época, perto da Augusta e seus puteiros. "é um povo que faz muito barulho, não consigo dormir", me disse ela uma vez, pra depois concluir que precisava existir uma intervenção do poder público pra tirar aquela gente dali. usei meu pior olhar de censura nesse dia. pra mim é muito óbvio que, se alguém tinha que sair, era ela.
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lembrei dessa história por conta de um documentário que assisti essa semana. Céu sem Eternidade é um filme de autoria coletiva, realizado dentro de um projeto que foi coordenado por Eliane Caffé.
o doc mostra a relação de conflito que se estabeleceu entre as comunidades quilombolas da região próxima ao município de Alcântara, no Maranhão, e o Estado, depois que se instalou por ali uma base militar que opera a serviço do programa espacial brasileiro. a instalação da base naquele ponto se deu por uma razão econômica: dali, pela proximidade com a linha do equador, é possível uma economia de 30% de combustível no lançamento de foguetes. em resumo, pra ocupar o espaço (trocadilho acidental), o que fizeram foi remover a população que tradicionalmente ocupava aquela região.
vários problemas: primeiro é que pra fazer isso, ao que parece, foi preciso realizar umas desapropriações ilegais, já que a Constituição Federal garante aos quilombolas o direito às terras que eles ocupam. depois disso mandaram a galera pro interior do mato. o problema é que era uma população que habitava o litoral e subsistia, basicamente, da pesca. não bastando isso, colocaram o povo nuns pedaços improdutivos de terra e descumpriram com a promessa de emprego e educação pros jovens das comunidades.
o filme e o debate que se seguiu me lembraram de um outro contexto muito parecido, que é o do Pelourinho, em Salvador, e as realocações, promovidas na época da reforma, dos moradores que tradicionalmente habitavam aqueles casarões. depois de tudo pronto, da reforma terminada, ninguém voltou pra lá. quer dizer: são as pessoas e é o Estado se permitindo escolher com base em critérios espúrios o lugar que querem explorar, e em nome dessa exploração expulsarem quem chegou antes. fico me perguntando de onde será que tiraram a ideia de que tá permitido agir assim...
sobre o ponto que deixei em aberto: aqui, bem aqui no pedaço de centro da cidade que eu ocupo, vem rolando exatamente esse processo de expulsão da população local. é aqui mesmo, na vizinha Augusta, a dos prédios e puteiros que estão dando lugar a novos empreendimentos imobiliários de elite.
afinal, dentro dessas relações tortuosas de poder, quem manda mesmo é o dinheiro. eis que hoje, enquanto eu pensava nessas coisas todas, no caminho de sempre pro trabalho, passei pela esquina onde antes existia um casarão abandonado. e lindo, de uma beleza que só é possível no abandono. tinha gente que se abrigava ali. gente da rua, gente que não tem nem o trunfo da tradição de morador - embora a gente constate que nem isso, na prática, evita os abusos. de qualquer forma, era gente.
(parênteses pra dizer que lembro bem do dia em que enxerguei mais nítido o valor daquele casarão. foi quando fizeram uma videoguerrilha na Augusta, eu voltava do trabalho na ocasião e fiquei um tempo ali assistindo as projeções, que sensibilizaram ainda mais meu olhar sobre aquela construção).
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| fotos de Paduardo |
há meses o casarão secular foi demolido. já tem algumas semanas que um stand de vendas foi montado no lugar, que vive cheio de gente engravatada fazendo negócio. vão subir um prédio residencial ali. mas só hoje, e talvez porque eu estivesse com isso tudo na cabeça, é que atentei pro nome do empreendimento. e ri alto na hora, tive que rir da ironia. o residencial vai se chamar Capital Augusta. capital. ele tem um slogan que diz assim: "o seu jeito de viver passa por aqui". a vontade que me deu foi de fazer uma intervenção naquela placa: o meu jeito não...
¹ ver Racionais MCs - Vivão e Vivendo





4 comentários:
nem o meu, mermã! :)
isso eu já sabia... ;)
Adorei. Vamos compartilhar muito conhecimento nessa nossa nova moradia. E que grande moradia! bjbj
certeza, Luísa!
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